Pin It button on image hover

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Perfumaria - Que Arte É Esta?


Sinto-me atraída pelas artes. Aquela atração que impele, alheia as considerações lógicas.
Procuro uma forma,  caminho  ou a receita  na tentativa, talvez, de obscurecer a ausência da maestria natural, do toque de genialidade que distingue um artista de pobres mortais.
Escrevi versos pueris, pinteis cores vagas e certamente terei minha própria composição aromática. Algum dia. Música não me atrevo. Nasci deficiente de "ouvido" e a voz cantante lembra o desafinado grasnar dos corvos. Talvez nem tanto, mas aqui austeridade é melhor que a benevolência.
O que faço bem é ler, e tentar entender.
Como um perfumista consegue ver notas olfativas, ouvi-las e finalmente cheirar? Mistérios sinuosos e delicados da mente.
Imagino-me uma sombra observadora no estúdio de Jean Claude Ellena enquanto elabora suas mil formas vazias, a espera da perfeita, do aroma que se aproxime do conceito olfativo abstrato dentro da sua mente. Uma abstração odorífera.  Sua  "promessa angustiante"  e sequente "linha clara". Isto me surpreende.


O conceito me impressiona, pois para mim um objeto de pretensão artística surge primeiro, amorfo e sem identidade. Apenas caminha de encontro ao seu destino.E quando toma ciência é ou está.
Detenho-me a divagar sobre o método de Michel Roudnitska, um caçador de aromas e substâncias. Será que sua  mola impulsionadora é a descoberta maravilhada de uma nova raiz, uma resina de terras distantes, um cheiro de outra cultura? Estará aí o seu conceito primordial?
Pelo histórico e referências lidas  mestre Roudnitska, (Edmond) soa como um cientista dos odores que disciplinou e ordenou seu próprio caos criativo. E assim fez maravilhas.
Deixou um legado. Referências perenes para aprendizes.
Jovem, moderno e cotado perfumista, afirmou que não é necessário sentir o aroma para construir uma fragrância. Que basta lê-la quimicamente. A fórmula diz  qual é o produto  e indica o resultado das combinações.
Estaria ali a diferença sutil que Ellena refere? Entre ser o alquimista ou apenas um químico formal?
-"  Ao longo das minhas criações mudou minha maneira de conceber os perfumes. Não dou mais ouvidos ao mercado - a criação as vezes exige surdez. Não empilho mais os componentes, eu os justaponho uns aos outros; não os misturo mais, eu os associo. Meus perfumes são perfumes acabados, mas não terminados. Cada perfume  está ligado ao precedente e já figura no próximo.
Assim diz Ellena no "Diário de um Perfumista"
Será possível para jovens perfumistas conceber esta signature parfum  que Jean Claude Ellena desenvolveu apenas com áridas fórmulas químicas?


Alquimistas de odores sempre existiram e existirão. Hoje vicejam confinados na classificação nicho, árvore frondosa que produz inúmeros ramos.
Quantos mergulham nos seus jardins, destilam e esquadrinham cheiros enquanto apenas colhemos flores...Alguns místicos procuram nos símbolos e números ou na espiritualidade um norte para sua criação. Outros, terapeutas, esmiúçam a finalidade de cada óleo ou planta aromática, a interação com nosso corpo elaborando sinfonias de bem estar. Todos alquimistas, todos artistas.
Cada processo criativo uma arte.
E quedo-me perdida. A arte me seduz  e me conduz. Fantoche dos seus caprichos na compulsão de fazer sem saber o quê e porquê, sem conseguir repetir, reproduzir, ordenar.
Sinto-me aprendiz de outras vidas e ainda não absorvi esta tal de Perfumaria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Apreciarei sua opinião ou sugestão e tentarei responder as suas dúvidas!