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quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Agarwood Parte I - Uma Nota oriental


Fragrant Harbour, Incense Harbour, trầm hương", "hēunggóng" termos que significam Porto Perfumado e literalmente deram nome à Hong Kong, pulsante metrópole Chinesa.
Durante 150 anos colônia inglesa, até 1997, Hong Kong era rota de importação e exportação de uma madeira extremamente perfumada chamada Agarwood ou Aloeswood - Oudh.
Lembrou-me uma cidade brasileira Sinop (Mato-Grosso) onde existem inúmeras madeireiras, cujos caminhões transitam constantemente pela cidade carregando toras. O calor intenso e a umidade espalham rapidamente o aroma resinoso de madeira recém-cortada.


Entretanto Oudh é madeira de árvores Aquilária, principalmente Aquilaria malaccensis ou Aquilaria agallocha, infectadas por bolores entre os quais  Phialophora parasitica, que provoca a formação de resina com aroma terroso, arborizado, agridoce e pungente. Geralmente conhecido na perfumaria e aromaterapia como  oudh negro.
Outras espécies fornecem resina semelhante como Aetoxulon sympetalum da Indonésia que origina Oudh Branco de notas quentes, úmidas e picantes. Basicamente existem dois tipos comercializados de óleo oudh. O branco e o negro.
Esta qualidade aromática o fez conhecido no Oriente e na Ásia desde o século VI, usado para incensos nas cerimônias tradicionais budistas, hinduístas e islâmicas, em esculturas, na perfumaria e na medicina tradicional ayurvédica, tibetana e do Extremo Oriente. É analgésico e digestivo. Em alguns lugares acreditam que seja afrodisíaco.


Presente em antigos escritos religiosos cita-se que Buda declarou ser Agarwood  o aroma do Nirvana (Céu).
O Profeta Mohamed também conectou Agarwood com o Céu, prevendo que aqueles que entrassem no Paraíso "brilhariam como a Lua cheia" quando se juntassem em torno de árvores de "aloes-wood".
Desde a Antiguidade homens e mulheres queimam incenso de aloeswood para perfumar roupas, casas e ambientes.
Modernamente é composto de alto valor devido a escassez na Natureza;  aplicado na perfumaria, cosméticos e farmacologia.
As árvores Aquilárias são provenientes de grande parte da Ásia; Da China, do subcontinente indiano às ilhas da Indonésia e das Filipinas e novas espécies foram relatadas no Vietnam e Tailândia.


Para extrair o óleo essencial do cerne da madeira infectada utilizam-se 3 métodos principais:
-Extração super crítica ou CO2
-Vaporização
-Hidro destilação
Vários fatores contribuem para a melhor qualidade do óleo: - Árvores mais antigas, extração pela destilação, tipo de solo, ambiente, e envelhecimento do produto final. Uma infecção antiga em árvore velha produzirá um óleo-resina de qualidade superior.
Além do óleo (dehn al oud) , obtido pela destilação, existe uma forma  em passas (oud mubakhar) que pode ser macerada.


Mercados orientais fornecem muitas fragrâncias a base de Oudh, geralmente combinados com notas de rosa. O acento inicial é  denso, animalic, terroso e agudo. Porém a medida que evolui torna-se floral doce e amadeirado.
Conhecido como "Perfume da Vida" , o aroma  também  se modifica com o tipo de queima a que é submetido (incenso) e com as variáveis do corpo que perfuma. Evolui em características diferentes em cada ambiente..
Tanta  diversidade de expressão determina diversas  nuances nas características aromáticas do Oudh que evolui de maneira caprichosa e única.

Sesquiterpenos, feromônios de defesa encontrados nas plantas medicinais ou tóxicas, são os principais constituintes do óleo.
Existem dificuldades para  reproduzi-los artificialmente o que explica a  diferença de  qualidade no Oudh sintético. A indústria ainda procura substâncias  artificiais que reproduzam toda complexidade deste odor.


Contudo vários fornecedores disponibilizam  agarwood sintético, reconstituído (blend), ou bases que combinam moléculas isoladas com óleos essenciais para chegar ao resultado mais similar ´possível.
Numa floresta natural cerca de 7% das árvores Aquilária estão infectadas, porém não é possível saber quais  antes do corte. Assim o abate indiscriminado tornou-se muito predatório para as espécies selvagens de Aquilária.
Algumas estão ameaçadas de extinção.
Quando uma árvore cai naturalmente  resina escura se forma dentro do cerne, que é colhido e usado para incenso, fins medicinais e extração de óleo.  Quanto mais velha a árvore melhor a qualidade e mais cara a madeira.


 Sementes

Este cerne dependendo do grau e idade da infecção vai do amarelado ao marrom escuro quase preto. A madeira adquire uma aspecto poroso muito característico que dificulta a falsificação.
Incensos envelhecidos são muito valorizados e alguns podem ter aproximadamente 100 anos.
Aquilária tem pequenas flores  de  coloração pálida,  amarelo esverdeado,  de aroma doce.
A demanda de oudh excede a oferta o que inflacionou tremendamente o produto. É a madeira mais cara do mundo.
Vários métodos para obter Agarwood em cultivo são estudados, contudo as árvores necessitam de um período que vai de 5 a 10 anos para extração o que desestimula produtores.
Além disto existem preocupações com o mercado consumidor, com as comunidades produtoras e estabilidade econômica das regiões envolvidas.

*A Parte II da série Oudh, Nota Oriental traz  um rol de fragrâncias contendo acento percebível deste óleo singular.

Imagens: HongKong Séc XIX; Aquilária de Oud Essentials; Oud essential oil de kanaujj attar; Agarwood de Plantação kerala, oud essentials oil; Vietnam Agarwood.

Recapturando de antiga resenha (Série Távola)  um momento sonho oudh...uma pequena crônica...uma inspiração para Agarwood - Parte I e Parte II 



Sonhei que tive um sonho.
Deslizava  pelo tempo, delicada e leve como uma pluma, tingida pelas mil cores dos lugares visitados.
Maravilhada, em cada canto vestia folhas secas impregnadas pelos odores e histórias de toda gente.


Visitei os primórdios africanos, rococós e rendas, estepes geladas, palácios, florestas  e desertos empoeirados. Conheci bárbaros, príncipes e gentio, senti o calor dos dragões.
Ri e chorei deslumbrada com o passado, embora não tenha ultrapassado umbrais do futuro.
Fiz-me rainha dentro de pirâmides entre milhares de óleos aromáticos, joias perfumadas que me aprisionaram em teia dourada.


Um sábio  de mágicas e filosofias pediu-me para escolher apenas um e seguir viagem.
Não consegui.
Na gula incoerente queria todos. Restou-me  a jornada, sem nada na bagagem, com todos os odores escondidos, em nichos secretos da memória, pelo tempo...


Mistérios insondáveis a espreita nos labirintos da mente. Que chave abriria esta arca oriental e perfumada?
Seria  um attar de oud, de rosa damascena, patchouli, mirra, de sândalo, incenso, ou de almíscar?
Talvez aquele  que  encerrasse todas as notas na sua composição em sinfonia de beleza  harmônica e estonteante.


Experimentei a primeira chave, esculpida na rara madeira Agarwood...
Elisabeth Casagrande

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