Pin It button on image hover

segunda-feira, março 16, 2015

A Beleza dos Perfumes - Távola 12

Japanese garden in may by Michel Roudnitska

Frente ao seu reflexo no espelho do cosmo a Natureza pergunta:
- Haverá algo ou alguém com mais beleza que eu?
- Não minha rainha você é e será sempre a mais bela.
Exuberante, caprichosa, esplêndida e pródiga! Cenário e palco, muitas vezes protagonista, não encontramos  nada que nos inspire mais.
Desconhecemos na história humana a primeira tentativa para reproduzir suas facetas, formas, paleta de cores e cheiros, contudo a veneração à beleza é  tão antiga  quanto o somos.
Encantam-me também as histórias, e quando conheci a de um belo jardim, do grande perfumista Edmond Roudnitska, viajei embevecida na trilha de corações perfumados.
As primeiras imagens registradas desvendam um pouco deste trajeto,  e fazem sentir a aridez da terra em Cabris - França, no ano de 1947, quando o sonho deste imenso jardim arte começou.
Roudnitska já havia demonstrado seu talento ao criar o belo Femme, ( 1944) mesmo com a escassez de matéria prima,  dos difíceis tempos da Segunda Grande Guerra Mundial, que se espalhara avassaladora e  cruel pela Europa...

Femme Rochas - photo Elisabeth Casagrande

Femme- 1944
Nada define melhor esta fragrância do que a concepção solicitada ao próprio mestre:
 - "Fragrância bela é a que nos causa um choque. O choque sensorial  seguido por um choque psicológico.  O belo perfume  é uma composição onde as proporções são felizes e a forma original."
- "Un beau Parfum est celui qui nous procure un choc, un choc sensoriel suivi d'un choc psychologique. Un beau Parfum est une composition dont les proportions sont heureuses et la forme originale."
A originalidade esteve presente, no equilíbrio das suas notas cálidas especiaradas e vibrantes. Sua doce sensualidade transmite a alegria de viver, temporariamente esmaecida numa sociedade que sofria os efeitos da ganância humana, dos desvarios do poder. Femme era um choque psicológico, positivo vitalizante...

Inspiration - Copyright Michel Roudnitska

Le Parfum de Thereze - 50s
Em tempos de paz e de romantismo, nos anos 50, floresce a  inspiração junto as flores e frutos do jardim delineado emexuberãmcia.
Surgiu  ali a bela criação motivada no  amor por Thereze,  companheira de todas as horas,  sempre presente e incentivadora.
Le Parfum de Thérèze permaneceu décadas para uso exclusivo da grande senhora, parfum signature, até ser liberado ao público, produzido pela grife  Frederic Malle em 2000.


Eau Sauvage - 1966
Originalmente sob a maestria de Edmond Roudnitska o perfume ainda produzido foi concebido, em 1966, para mulheres!  Entretanto conquistou sucesso junto aos homens...O que  poderia ser previsto, pois o aroma libertado nas primeiras borrifadas é ferino, indomável e provoca um frêmito inicial de pimentas ardidas, que flutuam  numa  brisa leve, cítrica e mentolada.
Esta ardência impetuosa e máscula se consome rapidamente como na queima de fogos de artifício enquanto suavidade morna e condimentada se instala...


Diorella - 1972
A expressão vívida dos frutos da terra, dos jardim e pomar de Roudnistka, vicejando em Cabris
Na  minha peregrinação olfativa  fragrâncias aromáticas acabaram seduzindo;  fragrâncias verdes que nos transmitem a sensação de um mergulho na Natureza.
A mensagem de Diorella é do profundo frescor e limpidez fugindo da banalização de alguns aquáticos atuais. É a liberdade de um mergulho em correnteza transparente e borbulhante.
Deleite confortável e primoroso...


Bois de Paradis

Art et Parfum - Photo by Arome - Michel Roudnitska

Atualmente Michel Roudnitska, artista multi sensorialist, filho e  perfumista tão habilidoso quanto Edmond,  é quem nos proporciona um rastro perfumado de beleza.
Entre suas inúmeras e harmoniosas criações uma se destaca, minha preferida - Bois de Paradis.
Expressa perfeitamente o que imagino ser hoje, pelas fotos e descrições do perfumista Michel, um refúgio encantador  quase mágico.

Fragrant window to the sea: Art et Parfum by Michel Roudnitska

Jardin de Éden cujas flores e frutos permitem o sonho, a fantasia, il doce farniente  feito de pequenos prazeres.
Sentir Bois de Paradis é como  abrir um livro cujo  delicioso aroma pode indicar  páginas  novas ou antigas.
Tanto encanta o frescor da celulose recém transformada e tingida, quanto a doçura de pétalas secas ou o residual odor de armários, em nobres madeiras.
Frente a uma lareira, no decair de um dia outonal, talvez com uma janela voltada para o poente, deixando entrever a silhueta de frondosas árvores elegantemente recortadas, vultos quase severos a contrastar com a vivacidade colorida do crepúsculo...

EDMOND ROUDNITSKA

Difícil tarefa traçar uma vida em palavras, tornar vívidas as ideias e sentimentos que orientaram escolhas particulares e profissionais de uma pessoa cuja existência foi pródiga.
Edmond Roudnitska viveu prodigamente e deixou um vácuo no mundo da perfumaria, em 1996 aos 91 anos.
Se existe o vazio também existem ideias, atitudes e realizações que constituem um importante legado.
Tocou-me profundamente uma frase, inscrita em pedra que se encontra nos jardins da Fundação Art et Parfum.

"Je ferai fleurir les pierres et chanter les oiseaux".
- Farei florir as pedras e cantar os pássaros.
Assim fez o criativo parfumeur!
Seis hectares de terras montanhosas, onde instalaram o atelier Art &Parfum e laboratório de pesquisa, abrigaram esta mente criativa no transcorrer de brilhante trajetória.
Árida e seca, a principio, exigiu esforços, despesas e tenacidade para converter-se num paraíso exuberante e florido, onde as espécies desabrocham em colorido e perfume, onde aves e cigarras podem cantar livremente.
No alto destes montes verdejantes, atingidos pelo vento Sul, a trazer odores do Mediterrâneo, de onde se avista, ao largo, a faixa azulada do oceano, Cannes ou a vila de Cabris, Edmond Roudnitska buscava sua inspiração.

Na Natureza que era um dos seus grandes amores.
Mas na alma de botânico, romântica e apaixonada, couberam muitas e diferentes paixões.
Na jovem Thérèze, que conheceu como engenheira química, no departamento farmacêutico da Fábrica de Laire, no início da vida profissional, aos 30 anos, encontrou amor.
O atlético jovem, que denotava prazer nas práticas esportivas, realizava românticos passeios de bicicleta na floresta de Bombouillet ou colhia lírios na L'Isle - Adam com aquela que seria sua terna companheira na vida profissional e pessoal.
Ávidos pela cultura percorriam as livrarias e sebos de Paris em busca de edições especiais.

Aderindo ao entusiasmo de Edmond pela perfumaria Thérèze acompanhava seus empreendimentos inclusive contribuindo com a ideia criativa de Moustache em 1948.
Filósofo e mestre, dos seus estudos sobre Kant absorveu e desenvolveu teorias, que refletindo sua postura criativa, foram passadas para os que desfrutavam do seu convívio particular, profissional e acadêmico.
Mentor de seu filho Michel Roudnitska, também de Jean Claude Ellena, entre outros, deixou mais que um legado material.
Imprimiu conceitos, e uma filosofia de amor à beleza e criação artística, baseados em rigorosa pesquisa e aprendizado científico.


Por ocasião do seu falecimento, a companheira dedicada de uma vida assomou a frente de Art & Parfum, tarefa hoje habilmente desempenhada por Michel Roudnitska.
Mantendo-se à altura do legado do seu progenitor o segundo nez Roudnitska criou e cria composições  primorosas, desenvolve estudos e teorias sobre a expressão dos odores em outras formas de arte, relacionando-os à música, cores e formas.
Edmond foi um compositor de perfumes que rejeitava rótulos e, que atravessou fases onde percebemos nas composições filosofias que orientam sua evolução pessoal.
Profundo conhecedor das substâncias naturais e sintéticas, seus estudos o levaram às conferências, palestras e artigos com base científicas.
Fundamentado em pesquisas e na prática profissional, escreveu vários livros que permanecem referências atuais como L'Art de Composer (1991), Art, Science and Technologies , expressões das suas convicções .

Para Roudnitska a criação em perfumaria deve ter um propósito maior que somente a satisfação do sentido olfatório. Necessita da associação à conceitos de forma estética e beleza, relacionada de maneira mais complexa com outras expressões artísticas.
O perfume deve ultrapassar o limite dos sentidos e tornar-se um instrumento para liberar as aspirações e sentimentos do homem.
- "Je fais corp avec le parfum, le parfum fait corps avec mois, je suis une machine sentante" - Eu me integro com o perfume , o perfume se integra comigo, sou um instrumento dotado de sensibilidade.
Outros livros publicados de autoria solo ou em colaboração chamam-se: L'Intimité du Parfum, Former les Hommes, Mythe ou Réalité, L'Estetique en Question, Le Parfum e Une Vie au Service du parfum.

OS PERFUMES

Após um extenso aprendizado na Sociedade Roure e Justin Dupont e com o perfumista Sr. Leon, Edmond ingressou na Fábrica Laire e, em 1939, dominando com segurança técnicas e matéria prima criou seu primeiro perfume, dedicado à Thérèze:
- It's You da casa Elizabeth Arden
Nos anos 40, época em que florescia a família olfativa chypre, idealizou Femme - que deveria ser chypre mas afastava-se do conceito clássico do protótipo perfume Coty, enquadrando-se mais como um floral aldeídico, frutal e amadeirado.
Mousseline que a princípio foi chamado de Chiffon de Rochas nasceu em 1946, seguidos de Mouche-1947 e Moustache-1948.

Nesta época encontra-se com Serge Heftler- Louiche, diretor de perfumes da casa Dior e nasce Diorama-1947, perfume complexo e sensual com notas temperadas, especiarias ( cravo-da-índia, canela, nozes, noz moscada, cominho) e pertubador animalic ( castoreum, civeta e almíscar). Os acordes verdes e florais estão representados pela violeta, ameixa, pêssego e jasmim.
La Rose foi idealizado em 1949 para Marcel Rochas.
Em 1951 assistindo uma conferência do professor de Estética na Sorbonne- Etienne Souriau, encontrou a plataforma para o desenvolvimento da sua proposta: O perfume não deve limitar-se a agradar o sentido mas tornar-se uma forma mais ampla de arte, um instrumento de expressão estética da procura da beleza e harmonia.
Suas composições perdem os extremos densos abaunilhados e frutais para evoluir em limpidez das notas puras , composições rigorosas e harmônicas.

Neste cenário pessoal nasce Eau d'Hermés- 1951 para Hermés, On Dit-1952 para Elizabeth Arden e Eau Fraichê-1955 para Christian Dior .
Dioríssimo - 1956, que se tornou um expoente criativo, caracteriza-se pelas notas verdes e vívidas. Refrescante, etéreo e luminoso está centrado na fragrância de lírios, na forma que é sentida ao raiar ou cair da noite.
Também para Dior seguiu-se o masculino Eau Savage -1966 e o frescor de Diorella -1972.
Dior-Dior-1976 emergiu num período de grande produção literária, demonstrada em artigos e livros sobre ética criativa, matérias naturais, e as sintéticas onde buscava a maior proximidade possível com os modelos originais.
Grand-Eau d'Hermés foi uma repaginação de Eau d'Hermés em comemoração ao aniversário da Maison, destacando acentos de canela e cardamomo, envolvidos em suave couro.
Ocean Rain-1990 para Valentino foi a última criação Edmond Rounitska.
Le Parfum de Thérèze constitui sua criação especial, concebida para a esposa, na década de 60. Não apresentada ao público, porém lendário segundo a opinião dos conhecedores.
Construído em torno de notas olfativas de tangerina, melão, jasmim, pimenta, violeta, rosa, ameixa, cravo-da-índia, cedro, vetiver e couro.

Artista, filósofo, escritor, feminista, naturalista... Edmond Roudnitska um mestre perfumista!

Arte irmã no Vídeo: Wagner- Parsifal (Opus Arte)


Referências: Textos compilados por Michel Roudnitska - Hommage a Edmond Roudnitska publicada em 17/06/2009 (Homage par Jean-Claude Ellena-05/1999; Fragrance-10/1996; Aroma Notes-07/1996; Perfumeur Flavorist-01/1987)
Imagens: Fotos de Art et Parfum e Michel Roudnitska em Spring in Art & Parfum's Botanic Garden com a gentil autorização do autor. - Imagens do acervo Michel Roudnitska - Edmond Roudnitska em 1989 - Inscrição em pedra nos jardins de Art et Parfum - Vista da vila de Cabris da sede de Art et Parfum - Edmond e Thérèze Roudnitska - Michel e Edmond Roudnitska - Edmond Roudnitska em 1947 - Criações perfumísticas - Thérèze, Edmond e Serge Heftler -Louiche- maison Dior - Sede de Art et Parfum - Edmond Roudmitska nos jardins de Cabris com Marka - Colagens e fotos de Elisabeth Casagrande

Leia mais sobre  a beleza na perfumaria nas resenhas de autores  que participam desta confraria ou Távola perfumada!

- A Louca dos Perfumes de Diana Alcantara
- Floral e Amadeirado de Luciana Marques
- Le Monde Est Beau de Juliana Toledo
- Odorata Parfums de Cris Bazoni
- Templo dos Perfumes de Cris Nobre 

10 comentários:

  1. Que lindo revisitar o mestre Edmond! Quem dera mais e mais perfumistas bebessem em sua inesgotável fonte! Lindo post, Beth!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Diana. São expressões de beleza os perfumes destes dois mestres . Talento de família. Admiro muitíssimo. O texto sobre Edmond Roudnitska estava na resenha do Diorella, há tempos, porém achei que caberia melhor aqui onde se fala de belos perfumes. São pura manifestação da arte Beijocas.

      Excluir
  2. Oi Elisabeth, :)

    ja disse uma vez e repito seus posts (alem de belíssimos!) são verdadeiras aulas de historia, muito obrigado.

    tudo tão bonito, são palavras com tanto afeto pelo assunto , as imagens ... enfim posts seus são deleites relaxantes rs
    (muito bonita a foto que vc fez do Femme)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Rafael. Muito obrigada. É resultado de vários gostos. Aprecio muito pesquisar a perfumaria, historia, arte , juntar tudo e escrever. As fotos que fiz do Femme são das minhas preferidas. Momento de muita sorte com a luz, o ambiente... Beijocas de Elisabeth

      Excluir
  3. Oi Beth! Consegui ler com calma hoje, minha nossa que deleite pelo tempo de uma vida e de seus perfumes!
    Realmente, a beleza habita no viver do sr. Edmond e filho, E que lugar lindíssimo esse "jardim" <3
    Beijos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não é uma lindeza Luciana? Está na minha wishlist. Fazer um curso de perfumaria em Grasse e dar uma voltinha em Cabris só para visitar este jardim.Beijocas de Elisabeth

      Excluir
  4. Que bela e poética história a do mestre Edmond! Inspiradora! Parabéns, Beth!

    ResponderExcluir
  5. Um mestre Cris! Deixou um legado no rastro perfumado, na fundação cultural, na autoria de livros, no jardim memorial, influenciando na formação de grandes perfumistas, encantando com sua sensibilidade artística. Grande contribuição para a perfumaria do último século. Admiro muito. Se o assunto é beleza na perfumaria ele é o 'cara". Beijocas de Elisabeth

    ResponderExcluir
  6. Oi Elisabeth .
    Gostei muito do seu blog ,pois curto muito perfumes .
    Você postou um comentário no meu ,sobre restauração de um móvel da sua mãe ,mas por algum problema não ficou indicado em qual postagem foi feito o comentário. Envie e-mail com fotos para que eu possa te orientar sobre o que tem de ser feito na peça .

    Amauri

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Amauri. Que bom que gostou do meu Bighouse. Obrigada. Adorei seu blog.Tantas dicas boas... Atrapalho-me um pouco com comentários, e olha que sou blogueira...heheheh. Vê-se que totalmente amadora. Enviarei sim o email. Agradeço muito a sua gentileza.

      Excluir

Apreciarei sua opinião ou sugestão e tentarei responder as suas dúvidas!