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sexta-feira, setembro 14, 2012

DÓ RÉ - Les Notes Gourmandes - Reminiscence Paris


Reminiscências...
Passos apressados confundiam respingos e gotas de chuvas nas calçadas que levavam ao Teatro Guaira, no centro da cidade, naquela tranquila  manhã de domingo.
Outono de 1963, quase inverno, contudo a jovem senhora e  garotinha percorriam apressadas o trajeto de aproximadamente 2 km, ignorando  as intempéries.
Motivada pela expectativa do ensaio final de dança clássica a pequena olhava através da cortina d'água  com a luz da paixão infantil.
Ballet rescendia magia!
Ensaiava arduamente, feliz, sob vigilância atenta  do professor Aroldo Moraes cuja dedicação se comparava a delicadeza da  esposa sempre presente.


Família de parcos recursos, a mãe se debruçava diligente sobre a  máquina de costura, cuja cadencia no pedalar  embalava  o sono da casa enquanto  surgiam   camadas de tule branco em tutús  complementando  corpetes de cetim bordado.
Fotos não há, infelizmente perdidas... nenhum registro de apresentações, ensaios ou tardes regadas a chá com  bolinhos cobertos de açúcar, na casa aconchegante onde se discutiam estratégias e passos  de dança.


O casal de mestres vivia  pelo ballet  e contagiava as jovens alunas no constante  borboletear do Lago dos Cisnes de Tchaikovsky ao Guarani de Carlos Gomes, entremeado de  pequenos recreios,  buliçosos cancan e ragtime.
Rebuliço vivaz circulava entre revistas, livros, imagens e histórias de  bailarinas famosas,  pas de deux, plié  e tragédias em echarpes coloridas.
Lembranças impregnadas  no perfume adocicado e suave das pointes ( cobiçadas sapatilhas francesas) envoltas em longas fitas de cetim rosa, passando pela caixa de giz no  roçar que  produzia   tênue ruído ainda guardado na memória, código informal para iniciar o  frisson dos bailados.
No aroma suave e inebriante das coxias circulava adrenalina, fôlego entrecortado, veludo e madeira de lei, enquanto saiotes rodopiavam provocando o tradicional frou frou.


Dó Ré de Reminiscence Paris cheira a bailarinas,  descerrar de cortinas e ao cobiçado  bouquet de prima donna.
Refinada e elegante a amostra de DoRé  satifaz o olhar aguçando curiosidade quase infantil pela fitinha de organza estampada em grafia dourada.
Um convite que exala aroma suave dos papéis de carta  guardados no fundo do armário.
Porém esta é  a reminiscência  que permanece, infindável, embebendo  a pequena folha texturizada  por muitos dias após  o rasgar de celofane..
Inicia perfumando com o frescor leve  e amadeirado das notas verdes no acorde de figo, logo submisso à intoxicante mistura de baunilha, almíscar e fava tonka.
Fase leitosa que desperta lembrança fugaz da doceria  de coconut em Sicily by Laura Biagiotti.
Assim é.
Doce  e láctea cremosidade que se derrama sobre generosa porção de amêndoas ou noz moscada escondendo  base amadeirada, seca, empoeirada, de almíscar e benjoim.


Características hipnóticas que denunciam a presença de cumaru ou fava tonka, aromática semente rica em cumarínicos, cujo aroma doce e pesado lembra  mistura de baunilha, noz moscada, cravo e canela.
Adorável  e inebriante, DóRé - Les Notes Gourmandes de Reminiscence Paris  entrou para o meu repertório.


Família Olfativa: Gourmand -  Floral amadeirado, 2008
Gênero: Feminino
Perfumista: Zoe Coste e Jacques Flori  ( Robertet)
Rastro: Intenso
Fixação: Ótima
Pirâmide Olfativa:
  • Topo -  Figo verde, notas verdes
  • Coração - Amêndoa, fava tonka, heliotrópio, madeira de sândalo, patchuli de Java, cedro da Virginia.
  • Base - Baunilha, fava tonka, benjoim, almíscar.

ARTE IRMÃ
A Dança e a Alma - Carlos Drummond de Andrade.

A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança - Não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolaas,
sem fugir a forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas

Vídeo: Heliotrope Bouquet - S. Joplin e L. Chauvin


Imagens: Frascos Reminiscence de Olfactoria files, Tutú de loja em Paris por Floatingwans, palco principal do Teatro Guaíra Curitiba-PR ( corte), pointes de Wikipedia, bailarinas de Edgar  Degas ( pintura),  Cartela de amostra DóRé Reminiscence Paris de Elisabeth Casagrande, La Dance des Papillons  de Tchinai - japanese art.

4 comentários:

  1. Nossa, Elizabeth, sua resenha tão apaixonada me levou longe... Agora eu quero esse perfume... Mais uma vez sua escrita me encanta!!!

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  2. Obrigada Diana. Sabe que eu também voei e fiquei com nostalgia daquele tempo, quando imaginava que seria uma grande bailarina e percorreria o mundo dançando.
    Fui uma menina tão sonhadora que todos meus sonhos não caberiam nas resenhas do blog.
    Este perfume tem uma doçura convidativa, gourmand de fundo amadeirado muito envolvente, além de ter me encantado na delicadeza da amostra refinada, em perfumados cartão e fita de organza .Recomendável. Beijocas de Elisabeth

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  3. Eu já sonhava em ser astrônoma, mas logo descobri a falta de jeito pra matemática, então...

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  4. sabe Diana, hoje vejo que nossos medos de criançaQadolescente refletiam muita falta de informação. Já temi a matemática, a falta de conhecimento no desenho, a insegurança com o mercado de trabalho... Venho de uma geração onde mulheres seguiam naturalmente o caminho do magistério, talvez pela influência da família da classe média com poucos recursos culturai, numa cidade provinciana.
    Faltou-me a ousadia para questionar dogmas e ousar voos. Poderia ter trilhado muitos caminhos diferentes.
    Felizmente para as gerações atuais o mundo é mais disponível. Viva a globalização. beijocas de elisabeth

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