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domingo, novembro 29, 2009

Passage d'Enfer eau de toilette - L'Artisan Parfumeur


Intrigante e místico.
Indecisa procurei este perfume mais de uma vez tentando descobrir que mensagem ele traz.
Certamente algum propósito deveria ter a escolha de nome tão sigular.
Uma provocação ou um conceito ?
Experimentei, uma, duas, tres vezes... e a percepção foi mudando.
A princípio pareceu-me suave e gélido. Acentos florais saltavam da pele. Lírios segundo a pirâmides olfativas. Delicados, quase insossos.
Na segunda vez senti o travo amargo deste lírio logo no início, sobrepujando o doce, acompanhado de nota picante, quente e sedutora que fugia do usual aroma de incenso.
Controvertida impressão que passou rapidamente desvanecendo em acorde fresco e cortante, ligeiramente polido por lúteo e cremoso almíscar.

Com mais algumas gotas enfim pude sentir a sua totalidade.
Afastadas as cortinas enganosas e esvoaçantes de lírios, almíscar, folhas e resinas frescas percebi a pureza do incenso.
Quase religioso, como se estivesse a aspirá-lo sobre o mármore frio de um templo.
Está presente do começo ao fim, algumas vezes dissimulado, escondido em alguma penumbra.
Mas, ainda não havia se dissipado a névoa que impedia de ver um significado no instigante nome.
Repentinamente uma idéia assomou!
Que passagem mística poderia ser assim gélida, trazendo o aroma de lírios brancos, de resinas amadeiradas, de incenso queimando em cerimônias religiosas, de sândalo, mirra e almíscares cremosos e puros?

A Travessia de Aqueronte, onde mais ....
Rio cuja nascente estava nos charcos que circundavam as cavernas próximas ao Vesúvio, onde povos antigos acreditavam existir uma passagem para o inferno.
Charcos e lírios, cavernas vulcânicas e sulfurosas. Estranha combinação transformada em perfume.
Caronte, o velho e soturno barqueiro de hades,  com as vestes impregnadas de incenso, dos que vieram em busca da travessia deste reino para outros, devidamente preparados em cerimônias simples ou suntuosas, embebidos de óleos aromáticos.

Remador incansável destinado a deslizar indefinidamente pelas águas turbulentas que delimitavam uma região infernal, num barco a abrigar de igual forma jovens perfumadas de flores ou guerreiros impregnados do cheiro das batalhas, travadas em florestas úmidas e densas.
Embarcadouro e travessia circundados pelos bosques, recebendo na aragem fria da noite os aromas de folhas e madeiras úmdas.
Eis Passage d'enfer, a expressão aromática de um mito nascido na obscuridade profunda de antigas crenças do homem.
Mitológico.
O perfume que a princípio pareceu insignificante e destituído de atrativos cresceu, a medida que se integrou de forma tão clara às imagens da minha mente.
Praticamente linear cadenciada como o vai e vem interminável do barqueiro, Passage d'enfer é uma fragrância destinada aos prazeres cotidianos do Olimpo.


Família Olfativa: Oriental amadeirado, 1999
Gênero: Unissex
Rastro: Intenso a moderado
Fixação: Muito Boa
Perfumista: Olivia Giacobetti
Notas Olfativas: Lírio branco, frankincense, aloe, almíscar branco.


Fotos : White Lily - Mandala.imagem de David J. Booinder 2005; Incense de Phil'l Philosophy;La Barca de Caronte- pintura ; Travessia de Aqueronte -pintura; Passage d'enfer sobrepaisagem de Alain Huong-Vietnan.

4 comentários:

  1. Fiquei curiosa quanto anota de incenso deste perfume.
    É parecido com Infusion D'iris, da Prada?

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  2. Oi Clê. Talvez assemelhe no estilo floral fresco. Infusion d'Íris não posso comparar pessoalmente, pois ainda não experimentei. Entretanto em leituras vi um paralelo estabelecido com Acqua di Parma, outro que tem este caráter fresco, geladinho.
    Algumas críticas referem um aroma final de pinus.Não senti exatamente assim. Parece que o incenso mescla com as madeiras frescas e folhas verdes.
    Na primeira vez que coloquei na pele não percebi imediatamente o frankincense. Pareceu intensamente floral.
    Foi um perfume estranho para meu nariz. Soltando camadas. O pacote aromático vem todo junto e precisamos apurar o olfato para perceber as notas sobrepostas.
    O incenso é puro, seco, cristalino. Nada de fumaça invadindo tudo. Como se o cheiro cristalizasse depois de queimar.
    Mas a fixação é terrível. Some em 3 a 4 horas.E o tal acorde semelhante a pinus ( madeira aoud?) é mediano. O incenso é bom, intensidade baixa.Suave.Beijocas

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  3. adorei este post, o paralelo que vc fez c/ a mitologia, fiquei muito curiosa p/ conhecer o cheiro dele.

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  4. Obrigada Paty! Este perfume me intrigou. Quando lembrei desta história da mitologia foi a luz. É realmente uma passagem do inferno. Mas a passagem dantesca que não lembra as chamas ... só a entrada.
    O nome sugere um aroma pesado, quente e intenso,não a fragrância incensada, de floral fresco, como realmente é.Beijocas. Elisabeth

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