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quinta-feira, agosto 27, 2009

Cuir de Russie - Les exclusifs de Chanel


Durante meio século de conflitos, lutas internas, czares que acumulavam erros e desvarios, a Russia sofreu, porém manteve aos olhos do mundo ocidental a imagem de terrítório vasto e misterioso.
Interpretada como uma terra exótica, marcada pelo luxo e pelos excessos que levaram seu povo à inúmeros embates, apresenta na história um trajeto intenso e apaixonado.
O sangrento domingo de outubro de 1905 marcou o inevitável declínio do último czar Romanov da mesma forma que a fundação da União das Repúblicas Socialistas Sovièticas ( URSS), em 1923, selou a consolidação da vitória dos bolchevistas... o poderio de Lenin.
Maison Chanel comercializava Cuir de Russie, um perfume que transmite luxo e opulência, em 1924.
Seria uma tentativa de capturar esta aura requintada de um sistema cultural agonizante ou apenas o reflexo do círculo de amigos da poderosa dama, que incluía inúmeros imigrantes da sociedade russa entre 1910 e 1920.
Difícil concluir com segurança, pois a própria Gabrielle Chanel era provocativa e revolucionária, o que se comprovava em atitudes, não só palavras, como no espanto e burburinho provocado com sua aparição em público, vestindo calça e paletó, no começo da década de 20.
Uma contestadora.
O conceito é obscuro para mim, entretanto sinto neste perfume características que provocam uma doce e melancólica nostalgia, guiada pela imaginação e não pelo conhecimento físico ou temporal.


Percebo uma obra de fina perfumaria, cuja evolução é surpreendente.
A saída aguda, de cítricos cortantes como adaga afiada, carrega gotas de mel que atenuam o brilho da lâmina.
Existe tal intensidade neste acorde que provoca uma tensão no ar.
Aldeídica mistura de limão laranja, bergamota somada à picante e herbal sálvia de jardim e a doce flor de laranjeira, conduzem à uma impressão de cintilante cristal.
Nada indica a vibração das flores embaladas pelo couro macio e escuro que assomarão a seguir.
Um bouquet opulento, onde se distingue a emanação de um jardim no qual flores irmanadas nos atingem ao mesmo tempo, destacando-se características de rosa, ylang ylang e volátil jasmim.
A fragrância avança vagarosa, sutil e quando percebemos instalou-se outro cenário.
Emerge o acorde de couro, cremoso, refinado e quase caramelado que gradativamente alia-se ao âmbar e a íris adquirindo polvorosa característica de talcos finos de toucador.
Nota fugaz de tabaco tempera esta composição, porém não o tabaco/couro animalic e rascante de Tabac Bonde ou o acorde de imperativa associação de couro e tabaco de Habanita, apenas a leveza das pitadas de tempero.
Esta agradável e luxuosa pelica permanece muitas horas, ainda adornada pelas aldeídicas e levemente licorosas flores, até o adormecer suave nos braços doces e almiscarados da íris.
Cuir de Russie afirma constantemente sua procedência da maison Chanel, imbuído de sofisticação, requinte e equilíbrio.


A beleza desta fragrância consegue nos surpreender, não com arroubos intempestivos da polka, mas com a beleza silenciosa e gutural das românticas catedrais, cujas formas arredondadas e coloridas se destacam contra a neve, como um porto acolhedor.
Junto aos seus conterrâneos de estilo olfativo tornou-se marco histórico e referência da família olfativa, transformando-se em exemplo para perfumes sucessores como o Cuir de Russie da casa Bienamé lançado em 1935, numa época na qual era possível dar nome igual ou muito semelhante aos perfumes que já existiam.
O couro olfativo está para Cuir de Russie Chanel como a família chypre está para Chypre de Coty.
Em 1983 foi relançado como um dos Les Exclusifs através da maestria de Jacques Polge que atenuou os aspectos do couro original, modificando principalmente as características de base.
Outras fragrâncias reconhecidas pelos acentos leather são: Derby de Guerlain, Bel Ami de Hermes, Cuir Mauresque de Serge Lutens, Gucci pour Homme, Givenchy Gentleman, Tuscan Leather de Tom Ford


Família olfativa: Couro (1924- 1983)
Perfumista: Ernest Beaux (1924) Jacques Polge (1983)
Gênero : Unissex, compartilhável
Rastro: Intenso
Fixação: Ótima
Pirâmide Olfativa:
  • Topo - Flor de laranjeira, tangerina, vergamota, limão, sálvia de jardim
  • Coração - Cravo, íris, jasmim, ylang-ylang, rosa e cedro
  • Base - Couro, âmbar, baunilha, heliotrópe
Imagens: Composição de Elisabeth com Editorial Chanel Paris-Moscow winter 2009;Saint Petesburg de cristimoise.net

2 comentários:

  1. Olá Elisabeth! Em primeiro lugar quero dizer que adoro o seu blog. Aqui descobri perfumes incríveis.
    Tenho a coleção completa dos Les exclusifs da Chanel e posso dizer que todos são maravilhosos. O CUIR de RUSSIE demorei um pouco para sabar se gostava dele ou não. Foi o último que adquiri. Mas descobri que é um dos melhores, claro depois do COROMANDEL. Não há no mercado nada que se equipare a eles. Adoro também os perfumes do TOM FORD. Beijos e continue nos passando os seus conhecimentos sobre perfumes. Ah, sou colecionadora e viciada em perfumes. Beijos. Sandra.

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  2. Oi Sandra. São perfumes maravilhosos! As vezes aquele que nos parece estranho no início da convivência se revela o preferido. São perfumes complexos que requerem intimidade e tempo. Maravilhosos. Obrigada pela gentileza. Beijocas de Elisabeth

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